
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
On a rooftop in Brooklyn
One in the morning
Watching the lights flash
In Manhattan
I see five bridges
The Empire State Building
And you said something
That I've never forgotten
We lean against railings
Describing the colours
And the smells of our homelands
Acting like lovers
How did we get here?
To this point of living?
I held my breath
And you said something
And I am doing nothing wrong
Riding in your car
Your radio playing
We sing up to the eighth floor
A rooftop, Manhattan
One in the morning
When you said something
That I've never forgotten
When you said something
That was really important
domingo, 27 de dezembro de 2009
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
24 de janeiro de 1953. Sábado de manhã, e me dedico ao velho exercício de apanhar o tempo entre os dedos, conforme ele passa, sempre passa e foge. (...) Tenho me dedicado à leitura dos versos vigorosos e densos de Gerard Manley Hopkins novamente: "Como manter - há um modo qualquer, qualquer um, haveria um meio, nos lugares desconhecidos, algum laço ou broche ou trança ou nó, grampo, trinco ou tranca ou chave para conter/ a beleza, para impedi-la, beleza, beleza, beleza... de desvanecer?". Sim, obcecada, como sempre, com o esvair do tempo!
(Sylvia Plath)
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
terça-feira, 6 de outubro de 2009
filme
Seu rosto grande
de perfil
sobrancelhas
um olho
pálpebra
nariz
o vinco acima dos lábios
boca
um pedaço da orelha
cabelo
testa
todos os dias
assim que ligo o computador em que escrevo agora
no fundo de tela
tomando o retângulo da tela
seu rosto grande
Há ainda outro retângulo
em que estou com você
e nos movemos
respiramos
você me olha enquanto a luz morre em seu rosto
fala
ouve
agora
em São Paulo
três de outubro
meio-dia e dezenove
ontem depois das três da manhã em meu quarto
no Rio de Janeiro quase duas semanas atrás
no Recife daqui a vinte dias
Está sempre entardecendo
e já é noite
agora
em São Paulo
meio-dia e trinta e quatro
você acende a luz
caminha até mim
e nos movemos
respiramos
agora
em São Paulo
treze horas e onze minutos
sinto sua falta
(Primeiro poema que escrevo em quase dois anos. Se parece muito com outros poemas que estão aqui no blog, tem o mesmo verso final de um deles. Num primeiro momento, hesitei em aceitar isso; depois percebi que os poemas conversam, este aqui surgiu assim, querendo retomar algumas coisas. Então, eu o coloco no blog para que se dê a conversa.)
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
sábado, 22 de agosto de 2009
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
quarta-feira, 29 de julho de 2009
terça-feira, 28 de julho de 2009
ANA
(cantando)
Acordar, tentar dormir, comer
Esperar, tentar respirar, ouvir
Descansar, soluçar, tremer
Estender, aplainar, cerzir
E agora
Este amor insistente
Por tudo o que em você se move
Tudo o que em você se espalha
Pela ínfima duração do presente
quinta-feira, 23 de julho de 2009
terça-feira, 14 de julho de 2009
PEDRO
Tá. E se a gente não se encontrar nunca mais a gente fica aqui vagando pelo parque até morrer.
TERESA
(sorrindo)
Não, até depois, junto com os espíritos. Ou os zumbis. Não sei quem habita essas árvores.
Pedro começa a andar. A cada passo, chuta de leve as folhas que estão sobre o chão, espalhando-as um pouco.
TERESA
Ah, Pedro, esqueci...
PEDRO
(sem olhar para trás)
Agora eu já comecei a andar, a gente só pode se falar de novo quando se encontrar por acaso no fim, não é isso?
Pedro anda mais um pouco. Olha os próprios pés enquanto espalha as folhas. Depois olha para trás.
Teresa não está mais lá.
domingo, 21 de junho de 2009
sábado, 13 de junho de 2009
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Daniel is hiding.
Erika is counting, "16,15,14,13,12,11,10,9"......
Erika is coming.
The sun is setting the scene.
In the garden it's starting to rain.
The trees are trembling.
Erika's repeating, "oh, oh, oh, oh"......
Erika is feeling something.
Daniel is hiding.
She's counting, "16,15,14,13,12,11,10,9,8,7,6,5,4"......
The sun is leaving the scene.
It took a look and turned away.
The trees are trembling.
Erika's repeating, "oh, oh, oh, oh"......
There is no laughter in the garden.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
quinta-feira, 21 de maio de 2009
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Laranjeira
O idoso conseguia caminhar
e com seus próprios pés
seguiu até uma árvore do pátio de sua casa
na comunidade de Ostitán
no estado de Tabasco
Don Chaguito
aparentemente
trabalhava ainda no campo
com seus pés
seguiu até uma laranjeira de dois metros
do pátio de sua casa
na qual pendurou uma corda de náilon
para enforcar-se
tinha cento e quinze anos
deixou aí jogadas sua cadeira e sua bengala
*
Bilheteira sentada. Projecionista fora de quadro.
Não é preciso que ele diga nada
chove
não é preciso que ele mova trinta graus
a cabeça
e olhe para mim
deve haver goteiras novas
no saguão
me esperam
um pano de chão
um balde
um rodo
me levantarei já
uma de minhas pernas
rígida
as escadas
o talão de ingressos
as poltronas
a luz sobre a tela
a se enfiar
entre
as perfurações da tela
e a perfurar
meu rosto
não espero que
ele veja
mas a metade deste pão
cor-de-rosa
recheado
e cozido
que deixei aqui
sobre as latas empilhadas
quero que ele pegue
e coma
*
O animal, os animais
À beira da pista de
asfalto à beira do
gramado à beira do lago
uma ave bica
repetidas vezes
a lixeira de metal
que reflete sua imagem
(o bico acerta o bico refletido
e acerta o bico refletido
e acerta)
Muito maior que as três pombas
que ciscam sobre o gramado
a ave tem penas pretas
e amarelo-esbranquiçadas
que no topo da cabeça
contorcem-se numa crista
O rabo é descompensado:
uma pena quase solta
faz com que a figura inteira pese
para seu lado
Em desequilíbrio, portanto, para alguém
que a observe, a ave deixa a lixeira
e procura algo na grama
sem atentar ao barulho
que ritmado ressurge
Uma ave bica
repetidas vezes
a lixeira de metal
que reflete sua imagem
Vinda de nenhum lugar
tem as penas todas pretas e
um grito
o bico
amarelo vivo
de resto é igual à outra
em tamanho crista patas
mesmo que ainda preserve a simetria do rabo
Não são patos
nem cisnes
como tantos à beira do lago
Uma senhora as vê de longe
“olha lá o jacu, Manoela!”
mas de perto se desmente
“não sei que bicho é esse não”
Abandonada a lixeira
a ave de bico estridente
aproxima-se de seu par
e erram ambas pelo parque
até a próxima imagem
refletida no metal
essa imagem insistente
que repetidas vezes
sem urgência
acerta o bico da ave
que se põe à sua frente
*
Mulher num quadro de Hopper
(roubado de Angélica Freitas)
Levarei um dia esta xícara até a boca
Calçarei de volta a luva
Roubarei uma banana da fruteira
sob meu casaco
ou sob meu chapéu
ninguém poderá notá-la
Um dia mastigarei
Ora, posso mover-me
Colocarei a fruteira sobre o aquecedor deste salão
e as frutas apodrecerão depressa
Ora, as horas correm
Descruzarei as pernas
Levantarei os olhos deste líquido escuro
Alguém descerá do carro lá fora
e esbarrará nesta cadeira vazia à minha frente
pedirá desculpa
Alguém dirá do reflexo das lâmpadas na vidraça
é um caminho sem fundo a se enfiar na noite
Levantarei um pouco o braço e os dedos presos na louça
Sentirei o gosto de café
um dia
esta xícara até a boca
*
Pegar com as mãos
(série de poemas)
um corpo
Você foi embora anteontem dentro do ônibus de viagem.
Para sair da rodoviária, ele
engatou uma ré muito lenta
fez uma manobra para a esquerda
e pôde então seguir reto
(seu rosto na janela foi junto).
A sua ausência restou, sentada em meu quarto.
Ela é um pouco incômoda.
Ela ocupa espaço.
Ela me faz companhia.
Ela dá trabalho.
Como um hipopótamo levado a passeio.
letra
Como um elefante.
Recebe esta
Pega
Há tempo já que
é matéria
esta palavra
Como um elefante.
Há tempo já
grafite
Esta palavra
pó
Recebe esta
Pega
Como um instante.
carbono
um desconhecido
Esta caneca que você segura
o que quer que tenha dentro
o seu sorriso
a luz que vem da janela
deve ser manhã
vapor leite café
o seu sorriso
a claridade seu olho
o que quer que tenha dentro
seu ombro braço seu corpo apoiado na pia
esta caneca que você segura
a luz que vem da janela
deve ser manhã
ainda
este retângulo
nunca
este retângulo fotografia
contra matéria
O ar que seu corpo empurra
matéria que corre a sala
e se espatifa contra matéria
o piso a parede o teto
você dança
quarta-feira, 29 de abril de 2009
quarta-feira, 15 de abril de 2009


segunda-feira, 13 de abril de 2009
segunda-feira, 30 de março de 2009

sábado, 28 de fevereiro de 2009
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
quarta-feira, 30 de abril de 2008
sábado, 15 de março de 2008
domingo, 10 de fevereiro de 2008
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
sábado, 3 de novembro de 2007
I
Seu rosto ilumina-se aos pedaços
você ri
traços de luz desordenados
sua alegria
a música alta
você ri
fecha os olhos, levanta um braço
traços de luz colorida
desordenados
II
Quando sua cabeça inclina-se para baixo
enquanto você dança
parece uma foto que conheço
olho por mais tempo
espero sua cabeça inclinar-se de novo
tento sobrepor esta imagem que vejo
à foto de que me lembro
mas sua pergunta me resgata
Você é quem eu estou pensando?
III
O que você fala para mim
se parece comigo
o que eu acho que eu
o que eu posso ser
ter sido
O que você fala
A maneira como fala
Sua voz
Sua cabeça pendendo até meu ombro
enquanto você dorme sentado sem se dar conta
Um barco que se mistura ao mar e ao nevoeiro
Uma trapezista
Os traços de luz
precisos
desordenados
sobre seu rosto
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
A insistência de seu desencanto
Seu olho que não consigo saber de que cor
A hesitação diante das palavras, uma língua que não é a sua
Seu olho que não consigo saber
(deitar-se na cama e ficar)
O barulho lá de fora
a água caindo na fonte, os carros
As janelas diante das janelas
e ninguém que olhe
As canções que se sucedem
de modo aleatório
aqui dentro do quarto
(cantarolar versos soltos)
O volume da música que parece aumentar
quando nos aquietamos
(cantarolar)
(deitar-se na cama)
(ficar um instante)
Um quarto que não é o seu
Uma cidade que não é a sua
Um país
A proximidade de sua partida
A foto que encontrei
Um metro e oitenta e sete
Um metro e oitenta e seis e meio
Você no canto direito do quadro
olhando com atenção
alguma coisa que não vejo
(esperar nada)
(esperar, ainda assim)
A ausência
este bloco
seu nome
(falar seu nome)
(repeti-lo)
sábado, 7 de julho de 2007
sexta-feira, 6 de julho de 2007

quarta-feira, 4 de julho de 2007
Janela
Olhei pela janela ao raiar do dia e vi uma jovem macieira, diáfana em meio à luz.
Quando olhei de novo ao raiar do dia lá estava uma grande macieira, carregada de fruto.
Passaram-se decerto muitos anos, mas não me lembro de nada do que aconteceu neste sonho.
(Czeslaw Milosz traduzido por Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza)
terça-feira, 3 de julho de 2007
Na padaria, o pai e a filha sentados numa mesa, um de frente para o outro, tomando café da manhã. Ela tem uns onze anos, acho. O pai tem um caderno. Abre-o e mostra desenhos para a filha. Vejo pedaços dos desenhos, parecem muito bons. Num deles, um garçom segura uma bandeja entre mesas cheias de gente. A menina olha os desenhos com muita atenção, muito interessada. Ri. Faz comentários curtos que não escuto bem. O pai também faz comentários. Tenho a impressão, sem nenhum motivo claro, de que os dois não devem morar juntos. Nem sei se são pai e filha, apenas assumi isso. O homem começa um desenho novo. Ela olha para o caderno. Seus olhos se demoram nas coisas. Ele atende o celular, continua desenhando enquanto fala. Apoiada na mesa, ela olha o caderno, muito atenta ao desenho que vai se formando, ou à maneira como ele move a mão enquanto faz os traços. Sorri, às vezes. Ele desliga o celular. Muda um pouco de posição, vejo que o que está desenhando é ela apoiada na mesa, com uma cara um pouco tristonha, uma xícara na frente e um balãozinho de pensamento vazio. Acho que ela não está tristonha exatamente. Está com o pensamento perdido em algo que o desenho não explicita. Ele termina o desenho, levanta o caderno para exibi-lo a ela, como fizera com os desenhos anteriores que já estavam prontos. Ela sorri lindamente.
(Um pouco mais tarde, ouço uma mulher dizendo "Vocês devem estar morrendo de saudade de mim". Olho e vejo que ela dá um beijo na menina, depois no homem e se senta com eles.)
domingo, 17 de junho de 2007
que escogimos"
María Victoria Atencia, "Exilio"
O teu corpo
treme
perto do meu
estamos sentados
um ao lado do outro
na minha cama
no hotel
é como se tivesses febre
mas não estamos doentes
eu sinto-me muito calma
abraço-te
peço-te desculpa
por te abraçar
retirei a estes poemas
o exotismo
aliás não houve exotismo nenhum
senti-me como o peixe na água
(Adília Lopes)
sábado, 9 de junho de 2007
segunda-feira, 4 de junho de 2007
(da peça "Seis da tarde")
sexta-feira, 25 de maio de 2007
quarta-feira, 23 de maio de 2007
Mas pensei agora em "Pia" e, procurando por ele, reli, por acaso, "osso".
Cansado de tanto silêncio.
Ia dizer que os dois poemas são de 2006, mas me dei conta de que, se não me engano, os dois são de 2005.
osso
aperta os dedos no meu braço
deita a cabeça num osso que abandona meu ombro
tem um nome
não me lembro
aperta os dedos
aperta
faz dois dias que não choro
repete não ouvi
não, nada
Pia
Você abre a torneira
a luz da lâmpada
baixa um pouco
volta
quando a água pára de correr
então deve ser quente
aí dentro da tigela
que você lava
suas mãos se demoram
na água
mais de um ano
uma carta
escrita
enviada
você aperta a massa
de trigo, fermento
água
ou leite
ovos
talvez
sal
domingo, 22 de abril de 2007
segunda-feira, 9 de abril de 2007
A tartaruga venceu Aquiles
unicamente com a razão
mas nem por isso tem ambição
de tornar-se o atleta do mês.
Para não infringir as leis
físicas, vai com moderação
não mete os pés pelas mãos
usa uma pata de cada vez.
O dia ainda mal amanhece
quando no jardim ela aparece
para iniciar sua aventura
e até que o sol se ponha
andará rumo àquilo com que sonha:
o coração secreto das verduras.
(Jacques Roubaud traduzido por Marcos Siscar)
domingo, 21 de janeiro de 2007
.
Olhando fotos de Anne Sexton (1928-1974)
Na primeira foto, Anne Sexton olha o mar.
Sabemos que é uma praia da Virgínia,
Carolina do Norte, e que é o ano
de 48, um dia
de sua lua de mel.
Tem os olhos
semifechados, enquanto ouve o rumor
das ondas, o vento que desfaz
e volta a erguer as dunas,
a água que se move com lentidão,
que traça
linhas,
curvas,
esferas.
A água que se move como a mão
de alguém que escreve a palavra oceano.
Na segunda imagem
– agora já estamos em mil novecentos e
setenta e quatro –, fuma um cigarro
perto de uma janela – por alguma razão
creio que do outro lado do vidro há um bosque –
e observa as figuras
formadas pela fumaça: peixes,
um iceberg,
uma sereia,
um anjo
gravemente ferido na neve.
Nesta foto
tem um aspecto estranho,
parecido ao de alguém que corre para um vulcão
ou ao de alguém que acaba de largar uma faca.
Poucos
dias
depois
Anne Sexton vai se matar
nesta mesma casa;
vai deixar
seus anéis
sobre uma mesa, na cozinha,
e em seguida
entrará na garagem
com um copo
de vodka
na mão,
ligará o motor
do carro – um Cougar vermelho – e o rádio
– você imagina o que ela pôde ter ouvido? James Taylor?
Grateful Dead? Pink Floyd? –
e aguardará a morte.
Fecho o livro
Você me olha.
Sei o que está pensando:
- A vida é muito difícil.
Uma mulher é um relógio de areia.
(Benjamin Prado – tradução de Marília Garcia)
sábado, 13 de janeiro de 2007
Nha cretcheu, meu amor,
O nosso encontro vai tornar a nossa vida mais bonita por mais trinta anos.
Pela minha parte, volto mais novo e cheio de força.
Eu gostava de te oferecer 100.000 cigarros, uma dúzia de vestidos daqueles mais modernos, um automóvel, uma casinha de lava que tu tanto querias, um ramalhete de flores de quatro tostões.
Mas antes de todas as coisas bebe uma garrafa de vinho do bom, e pensa em mim.
Aqui o trabalho nunca pára. Agora somos mais de cem.
Anteontem, no meu aniversário foi altura de um longo pensamento para ti.
A carta que te levaram chegou bem? Não tive resposta tua. Fico à espera.
Todos os dias, todos os minutos, aprendo umas palavras novas, bonitas, só para nós dois. Mesmo assim à nossa medida, como um pijama de seda fina. Não queres? Só te posso chegar uma carta por mês.
Ainda sempre nada da tua mão. Fica para a próxima. Às vezes tenho medo de construir essas paredes. Eu com a picareta e o cimento. E tu, com o teu silêncio.
Uma vala tão funda que te empurra para um longo esquecimento.
Até dói cá ver estas coisas mas que não queria ver.
O teu cabelo tão lindo cai-me das mãos como erva seca.
Às vezes perco as forças e julgo que vou esquecer-me.
(Ventura e Pedro Costa, "com três ou quatro coisinhas de Robert Desnos", para o filme "Juventude em Marcha", de Pedro Costa)
Das cartas censuradas 2
Talvez gostasses de me mandar abraços
mas mudei de endereço e de vista da janela
te escrevo então para dar notícias
Moro agora perto do mar
ou seja o mar, me dizem, é perto
e quando o vento levanta as ondas
sinto sal nos lábios
e a concha da minha orelha é como concha marítima
Lá do andar das minhas companheiras
dá pra ver, me dizem, atrás das árvores do bosque
uma faixa azulcinza
poderia subir quando é permitido
e conferir
mas não quero
Através dos outros
sei que estás bem
e fico contente
e fico preocupada que cortaram, ouvi dizer, teu tempo
/de passeio
mas fecho os olhos
e juntos
andamos pelos campos como antes como tantas vezes
e não te preocupes
me abraçarás sob uma árvore viva
e não te preocupes
não choro quando abro os olhos
e vejo muro
o soldado armado
Darlówek, campo de internamento
março de 1982
(Anka Kowalska - tradução de Ana Cristina Cesar e Grazyna Drabik)
segunda-feira, 8 de janeiro de 2007
(para Angélica Freitas, outra vez)
Voltei a comer bolinhos de polvo
depois de quase um ano
ou um ano inteiro
não sei
A chuva começou
assim que me entregaram
o prato de plástico
com os bolinhos
Eu os comi sob o toldo
de pé
no asfalto
O gosto era bom
o mesmo
Em dezembro
três semanas atrás
encontrei
no meio do mato
uns morangos silvestres
que eu costumava comer há quinze anos
colhi um
coloquei-o na boca
senti
o que me fizeram sentir
as papilas gustativas
um sabor
que conheço
e de que gosto
ainda
nenhum abismo de tempo
hoje
na chuva
voltando para casa
falei sozinho
os bolinhos de polvo ainda são bons
sinto sua falta
segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
Recortado pela janela
do apartamento
que bóia iluminado
no centro do quadro
da cidade
vista daqui deste quarto
no início da noite de domingo
aquele homem passa roupa
com empenho
Roupa para toda a semana
penso
e observo os movimentos dele
rápidos
repetidos
enquanto escuto você falar
enquanto falo
enquanto este quarto escurece
e me espalho devagar
por esta facilidade nova:
uma conversa
que corre como o ferro sobre a roupa
como os carros na rua
como a corrente elétrica pelos fios
das lâmpadas pequenas que piscam
penduradas na árvore de natal da sala
daquele outro apartamento
vizinho ao do homem que sem camisa
nesta noite quente
17 de dezembro de 2006
em São Paulo
passa roupa
e habita o presente
domingo, 10 de dezembro de 2006
sexta-feira, 24 de novembro de 2006
(Angélica e Marco, amigos grandes, me mencionaram, então fui convidado pelo Aníbal Cristobo a mandar três poemas para lá. Dois deles não estão aqui no blog. E há muita coisa lá para ser lida, começando por Angélica e Marco.)
(roubado de Clara Lobo)
Eu me sentava e esperava morrer ela disse
o que havia para mim
entre acordar
e voltar a dormir
antes que você começasse a vir visitar-me
era
sentar-me
e esperar morrer
você me conta ela não tem força para levantar um prato
ou levantar-se sem ajuda
o filho antes de sair para o trabalho deixa a comida pronta
em algum lugar que ela alcance com facilidade
o filho volta à noite com cuidado a deita na cama
quase não encontra para ela palavra
moram em Boston
onde não se fala polonês
ou francês ou alemão ou latim
não inglês ela não fala
os dois livros de história polonesa que escreveu devem estar guardados
junto aos outros livros
sem uso
os olhos não encontram foco
a lucidez não vai embora
você a vê uma vez por semana
leva-a sem nenhuma pressa até o parque senta-se com ela no banco
e fala
e ouve
fazendo uso do francês que também você aprendeu em outro país
eu me sentava
e esperava e o
tempo só existia
segundo
depois
de
segundo
para um nada um
nada
oitenta e nove anos
não há muito pareciam fazer
sentido respirar parecia
fazer sentido
como agora
porque toda quarta-feira
eu quase não a conheço você é jovem tão jovem mas toda quarta-feira você fala francês e
fala comigo
eu me sento
e espero
por este dia da semana
quinta-feira, 5 de outubro de 2006
sábado, 9 de setembro de 2006
Vou acabar machucando minha boca você diz
seus lábios estão ressecados pelo frio
seus dentes encontram as pontas de pele
para arrancá-las
Antes que se pense a respeito
os dentes lá estão
E mesmo que se pense a respeito
os dentes lá estão
Há pouco você evitou um outro gesto irrefletido
quando sua mão e seu fôlego
estavam prontos a acender um cigarro
Sem um maço
e sem fogo
no bolso
o gesto não se completa
e ainda que o sabor da fumaça não mais o mova
por um instante a mão e o fôlego
são no seu corpo algo que falta
trata-se de um buraco
a morte difícil de um hábito
Meus lábios também se partem no frio
e também os mastigo
Não precisa esperar comigo você diz
passar frio à toa
o ônibus vem logo
ou demora pouco
posso esperar sozinho
Eu sorrio
não sei dizer nada
não saio daqui
necessito
(como sua mão de um cigarro que se tire do maço
e se prenda entre os dedos)
ver você entrar no ônibus olhar ao redor sentar-se
ver você
ainda
enquanto desaparece
quarta-feira, 28 de junho de 2006
As mágicas luzes da ribalta
Um urso de vestido branco e véu rendado corre pela beirada do picadeiro
com uma das patas dada a um urso que veste fraque e gravata
não é um casamento
os dois se mantêm cambaleantes sobre as patas traseiras
e usam cada um uma focinheira que não os deixa abrir a boca
talvez alguém na platéia solte uma gargalhada
sem que eles saibam por quê
enquanto seguem correndo ao som da fanfarra
os olhos de um e do outro perdidos
Quem preparou este número
teve sucesso, sem dúvida:
são agora figuras humanas
não por causa da gravata
tampouco pelo vestido
quarta-feira, 14 de junho de 2006
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.
Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.
quarta-feira, 7 de junho de 2006
sábado, 6 de maio de 2006
sábado, 29 de abril de 2006
lembrar o dia que não consigo
esquecer
- não era essa a letra da canção mas
foi o que entendi
lembrei: andamos os dois juntos
por dez minutos
em 1996
ao longo de uma rua
até a esquina
e,
depois de dobrarmos à esquerda,
até a esquina seguinte
em frente ao prédio em que você morava
tchau ou até logo ou
penso nisso
desde então
mas não consegui salvar nenhuma palavra
e devemos ter dito quinze ou dezesseis
cada um
quarta-feira, 26 de abril de 2006
(roubado do Daniel Turini)
Lurdes ganhou da sobrinha-bisneta
um cachorro de pelúcia
dispensa cuidados ao cachorro
todos os dias
está caduca
dizem
na família
sabe, querida, o cachorrinho que você me deu?
ontem latiu para mim
claro vovó
(toma mamãe o telefone rápido
faz alguma coisa
minha tia-bisavó está caduca)
não conte ainda para sua filha, Agda,
mas ela caiu justinho no chiste
do primeiro de abril
acredita
imagine
que o cachorro late
- Senhor Ita?
- Ela disse que ele quase gritou no telefone "Ô, menina, pára de me chamar de Senhor Ita. Me chama de qualquer coisa, Seu Ita, doutor Ita, mas pára de me chamar de Senhor Ita, pelo amor de Deus".
segunda-feira, 3 de abril de 2006
(para Angélica Freitas)
deixei
as roupas do ano passado
no ano passado
vamos tomar um suco
e comer bolinhos de polvo
sob o sol
de pé
no asfalto
deixei os ombros cobertos
no ano passado
deixei de ouvir a cidade
o que dizem para mim
quando ando sozinha
ouço música
e olho
assim não tenho que estar todo o tempo
a procurar curativos
“pensos-rápidos” diria Adília
algodão e esquecimento
deixei o ano passado
no ano passado
não deixei tudo
é verão mesmo nesta cidade
uso blusa de alcinhas
vamos tomar um suco
e comer bolinhos de polvo
sob o sol
de pé
no asfalto
(poema escrito para ser lido no almoço de domingo que virou janta que virou dia inteiro muito feliz com pessoas fabulosas)
quinta-feira, 30 de março de 2006
Ela vai até a beirada do palco
afasta o microfone da boca
canta
pode chorar
um rasgo
um leito
pode chorar
antes
(agora ainda
no canto direito
da gaveta)
nós dois
esboçamos
um sorriso cada um
a pedido do comerciante de lembranças
segunda-feira, 20 de março de 2006
um homem entrou
no ônibus
conversou com o
cobrador falou alto
(encontra assunto
com todo mundo)
eu sou esse homem
ele falou não me lembro o quê
nada
faz anos já
estava de pé, ele,
sem camisa
junto ao cobrador
sem passar a roleta
falava
e se movia
gesticulava
tinha um corpo
não me lembro qual
era um dia de semana
não chovia
eu estava sentado
o homem
estava de pé
falava
e se movia
eu sou esse homem
pensei
não sou
o ônibus
seguia para algum lugar
onde ele desceu
não me lembro nem
de vê-lo passar a roleta
domingo, 5 de março de 2006
Às seis e meia da manhã
o rapaz estava na sala
com a mãe
a irmã
e dois policiais
enquanto o delegado e o perito
examinavam o computador da casa
no quarto de empregada
o rapaz de dezessete anos
pediu licença
deixou a sala
onde estava acompanhado da mãe
da irmã
e de dois policiais
foi a seu quarto e se atirou da janela
meu filho gostava
das madrugadas
diante da tela
não sei nada sobre fotos
salvas no arquivo
crianças menores de quatorze anos
bebês
ele dormia tarde
nas férias escolares
passava as madrugadas
diante da tela
mas isso não diz tudo sobre ele
havia outras coisas
de que gostava
eu não sei dizer
quais eram
mas havia
sábado, 25 de fevereiro de 2006

Desfile
Nada é do tamanho
do que sinto agora em mim
nada do que sinto
foi sentido tanto assim
só a dor constrói
só o amor que dói
só mas com amor
meu mundo é maior
Nada é do tamanho
do que já desfila em mim
filas de escolas
com milhões de tamborins
e eu sem ter lugar
pra tanto bem e tanto mal
tudo isso vem
de Pedro Álvares Cabral
desde os ancestrais
desde os canibais
desde os meus avós
desde os meus pais
desde que nasci
acho natural
tanta solidão
no esplendor do carnaval
(letra de Luiz Tatit, música de Ná Ozzetti)
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006
Esta porta não abre mais
emperrou muito tempo atrás
quando você se foi pra nunca
Da varanda ao corredor
pespegada essa dor
já respirado, o ar parou
Do porão até o portão
desde o chão até minha mão
tudo guarda camadas de pó
Mas se range a madeira do piso
sob qualquer pé
tudo se mostra tal qual não é
Esta porta se faz abrir
o telhado não vai cair
móveis limpos, passado algum
Eu respiro, eu espero
converso, tento esquecer
me torço, tento esquecer
esqueço, tento esquecer
Pelo avesso é que eu sigo bem
sua falta não vai além
dessa frincha que o teto abriu
Mas mesmo se ninguém vê
a farpa que sobrou de nós
debaixo da unha ainda dói
(letra para o samba composto pelo Heron Coelho)
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006
escorregue
deslize até a esquina
deslize
o rosto metido no vento
deslize
veloz
veloz
na descida
terça-feira, 21 de fevereiro de 2006
(roubado de Mauricio e Marina)
No meio da cidade de Berlim
um rio parou de correr
congelado
Numa ponta da África do Sul
o vento não deixou
que uma pessoa desse um passo
Aqui
o tempo
continua passando
Ontem mesmo
(nunca
chega)
quatro horas se perderam
domingo, 19 de fevereiro de 2006
(a partir de Teixeira de Pascoaes)
Se não
fossem
as minhas
coisas
eu não
era
a que sou
As coisas
estão
partidas
estão
perdidas
por minha
culpa
e causa
A mim
não volto
mais
Porém
sem
minhas
culpa
e causa
(de partir
e perder)
eu não
era
a que sou
sábado, 18 de fevereiro de 2006
um condutor do metrô equivocou-se um dia
a porta que se abriu à minha frente
dava para o buraco dos trilhos
alguns metros de hiato
entre o trem e a plataforma
o que mata é
pôr uma mão em um trilho
outra mão em outro
e deixar a corrente elétrica
achar no seu corpo um caminho
para ir embora
e ir embora
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006
terça-feira, 14 de fevereiro de 2006
A cavidade do olho de uma pessoa
encaixa-se no ombro de qualquer outra
Abaixe-se um pouco
eu inclino a cabeça
e desapareço na ponta de seu osso
*
As coisas
ganham contorno
a primeira luz dilui a noite
eu olho você olha
debruçado
na janela
este silêncio
*
um corpo
deixa outro corpo
e caminha para o alto
como um corpo
que escalasse a porta de vidro
como um corpo
feito de tempo e matéria
que deixasse outro corpo
(ele mesmo)
caído
*
daqui a uma hora
e dois ou três minutos
um dia
inteiro
terá terminado
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006
À beira da cama, sentada
O quarto azul como nada
A tarde é que morre
por trás da cortina
nos móveis
na mão
na retina
Sentada, os pés na madeira
O instante é a história inteira
O chão deste quarto
é o espaço do mundo
o tempo
é pra sempre
um segundo
Que surja lá fora
um qualquer ruído
Que venha dos outros
um qualquer indício
Sentada pra sempre agora
À espera do que a leve embora
Uns passos na rua
Um brilho no vidro
Um cheiro
há muito
esquecido
À beira da cama, silente
Atenta ao rumor do presente
Não há outro tempo
Não há outra esfera
Presente
é memória
e espera
Não há outro tempo
Não há outra margem
Presente
é demora
e passagem
(letra de canção feita para Marina Corazza em dezembro de 2004)
terça-feira, 7 de fevereiro de 2006
A peça tem coisas muito boas.
Eu a vi com os pés encharcados. E com uma vontade que havia surgido no meio da penumbra da minha casa: a de imergir em alguma coisa.
Córrego
Pode deixar que este cão que ronda a rua
não nos vê aqui no escuro
e se nos vê
não liga
vai
volta
vai
não volta nunca mais
o chão de pedra
um vão
e outro
outro
a sombra divide o muro
seus óculos pousados no chão
blocos de pedra e intervalo
seus olhos
líquidos
meu peito
um vão
e outro
outro
quarta-feira, 28 de julho de 2004
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2004
"O Big Ben bateu a meia hora.
Que extraordinário era, que estranho, que comovente mesmo, ver a velha senhora (há tantos anos que eram vizinhas!) retirar-se da janela, como se estivesse ligada àquele som, àquela corda. Formidável como era, tinha alguma relação com ela. Profundamente, em meio às coisas ordinárias, tomba o dedo, solenizando o momento. Ela era forçada por aquele som, imaginou Clarissa, a mover-se, a retirar-se... mas para onde? Clarissa procurou segui-la enquanto ela se voltava e desaparecia, e pôde ainda ver-lhe a touca branca a se mover no fundo do quarto. Para que credos e orações e capas de borracha? quando, pensou Clarissa, ali estava o milagre, ali estava o mistério: aquela velha senhora, a quem podia ver dirigindo-se da sua cômoda para o toucador. Ainda podia vê-la. E o supremo mistério, que Kilman ou Peter diriam ter resolvido, embora Clarissa não os julgasse capazes da mínima idéia em tal sentido, era simplesmente isso: aqui havia um quarto, ali outro."
Virginia Woolf em "As Ondas", na tradução de Lya Luft:
"Agora, trata-se de resumir - disse Bernard.- Agora, trata-se de explicar-lhe o sentido de minha vida. Como não nos conhecemos (embora eu tenha visto você uma vez, penso, a bordo de um navio a caminho da África), podemos falar livremente. Tenho a ilusão de que alguma coisa adere por um momento, assume forma, peso, profundidade, perfeição. No momento, parece ser a minha vida. Se fosse possível, eu a daria a você. Haveria de colhê-la como se colhe um cacho de uvas. E diria: 'Tome-a. É minha vida.'
Infelizmente, porém, o que vejo (esta esfera cheia de imagens), você não vê. Você me vê a mim, sentado à mesa à sua frente, um homem um tanto pesado, de certa idade, têmporas grisalhas. Vê-me apanhar o guardanapo e desdobrá-lo. Você me vê encher o cálice de vinho. E vê atrás de mim a porta que se abre, gente passando."
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2004
Uma de suas novas manias é dizer: "Eu tô tliste e blavo" (outra das manias é falar como o Cebolinha). Ele disse isso várias vezes e, numa delas, quando eu perguntei por que, ele respondeu que o motivo da tristeza e da raiva era o fato de ele não ser eu. Depois de falar um pouco sobre isso, sobre eu não ser ele e ele não ser eu, acrescentou que queria poder crescer logo. "Mas em Vila Velha você me disse que queria ser criança pra sempre". "Ah... mudei de idéia". Pausa. "Eu gosto de mudar de idéia, sabe?".
O peso todo da conversa de Vila Velha estava em mim, é claro.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2004
O Théo quer seus cinco anos de idade por mais tempo.
E sempre, de algum jeito, me dói a passagem de tudo. Eu não sei como ou quando me nasceu esse medo.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2004
Estávamos em Vila Velha - na casa onde morei desde que nasci até os 17 anos de idade - deitados na cama. Não me lembro se tínhamos acabado de acordar. Acho que não, me parece agora que era o meio da tarde, mais ou menos. Talvez a gente estivesse descansando um pouco depois de jogar bola na sala de casa por algum tempo. Com o calor forte que estava fazendo na semana passada, em Vila Velha, devíamos estar exaustos (eu, principalmente, que me canso muito antes do Théo). Isso aconteceu algumas vezes naquela semana: ele insistiu para que jogássemos bola, eu aceitei para alegrá-lo, jogamos por um tempo, eu me cansei e propus que descansássemos um pouco. Não sei se no momento dessa conversa era isso o que tinha acontecido. Nem sei mais o dia exato em que a conversa se deu. Talvez terça-feira, dia 23 de dezembro. Talvez quarta, já, dia 24. O fato é que, quando ela aconteceu, estávamos no quarto que um dia foi do meu pai e da minha mãe, depois foi só do meu pai, depois foi da minha irmã, depois foi da minha irmã e do Théo (dentro do berço), depois foi só da minha irmã de novo e agora não é de ninguém, mas ainda tem um sofá-cama onde eu e o Théo nos instalamos na semana passada (quando estivemos em Vila Velha para, entre outras coisas, passar o Natal). Estávamos deitados na cama. Pode ser que eu estivesse tentando convencê-lo a tomar banho. E eu não sei sobre o que estávamos falando, mas acho que a frase do Théo não tinha a ver com nada do que havia sido dito antes:
"Eu não quero fazer seis anos".
Fazer seis anos não deveria ser uma preocupação para ele agora, já que seu aniversário é só em outubro.
"Por quê?"
"Porque eu quero ficar criança para sempre. Eu vou ficar pra sempre com cinco anos."
"Ah, é? Por quê?"
"Porque eu não quero morrer".
Eu tenho muita raiva da minha memória sempre imprecisa. Maria Eugênia descreve a roupa que estava usando no seu aniversário de, sei lá, sete anos, e eu não consigo lembrar direito o que exatamente o Théo me falou uma semana e meia atrás. Eu queria muito reproduzir aqui o que foi dito naquele dia em Vila Velha, mas o que surge é uma tentativa bastante frágil de lembrança.
Não sei se eu falei alguma coisa depois que ele me disse aquilo, mas meus olhos se encheram d'água. Tentei disfarçar, não quis que ele me visse chorando pra não deixar tudo mais pesado. Ele me perguntou se todas as coisas morriam, e eu disse que sim. "Mas eu não vou morrer", ele voltou a afirmar, pelo que me lembro. Então ele perguntou se um shampoo morria, acho, e aí eu disse que não, que a coisa tinha que estar viva para morrer, e que um shampoo não estava vivo.





































